Exercitando o Otimismo Realista

Quantas vezes você deixou algo importante, mas não urgente para depois? Algumas vezes conseguimos contornar a situação a tempo, mas em outras nós fabricamos urgências, perdemos oportunidades, ou ainda, geramos perdas irreversíveis.

No excelente livro A equação de deixar para depois, Piers Steel traz uma excelente definição da procrastinação: o atraso intencional irracional, quando sabemos que nossa situação só vai piorar com esta decisão, mas mesmo assim o fazemos.

La persistencia de la memoria (Salvador Dali, 1931)

E o que nos leva a esta (falta de) motivação para realizar uma tarefa? Steel traz quatro elementos básicos: expectativa, valor, tempo e impulsividade.

  1. A expectativa refere-se a acreditar na relação de causa e efeito entre esforço e resultados, no sucesso dos frutos do trabalho. Está relacionada com esperança e autoconfiança, embora o excesso desta última leve a improdutividade e adiamentos.
  2. O valor é o orgulho, prazer e realização com o trabalho. Quanto mais valorizamos uma atividade e temos prazer, realização e orgulho com ela, maior nossa tendência de realizá-la.
  3. O tempo é o horizonte das recompensas do trabalho, quanto mais distante dos resultados, menor nossa propensão a agir.
  4. A impulsividade é um agravante do fator tempo, chamado por Steel de Calcanhar de Aquiles dos adiamentos. Alguns de nós somos mais propensos a não resistir às tentações de curto prazo. Além disso, a proximidade e a virulência da tentação são determinantes dos adiamentos.

Para enfrentar os adiamentos, Steel recomenda uma estratégia chamada Otimismo Realista, que envolve quatro práticas: Espirais de Sucesso, Vitórias Indiretas, Realização de Desejos e Preparar-se para o Pior.

  1. Espirais de Sucesso: consiste da definição de sucessivas metas desafiadoras e atingíveis, uma espécie de sequência de realizações que geram confiança e mobilizam para mais realizações. Você pode até pensar fora da caixa e fazer isto fora do contexto de trabalho, como realizando viagens arrojadas, aprendendo algo novo ou levando hobbies para o próximo nível.
  2. Vitórias Indiretas: é uma das mais adotadas, embora, em minha opinião, as pessoas não tenham muita sistemática nesta prática. As vitórias indiretas acontecem por meio da mobilização com inspirações e sucesso de outros. Na prática: assistir a filmes ou palestras inspiradoras, ler biografias ou romances inspiradores e associar-se a grupos, associações empresariais ou comunidades com objetivo de aprendizado e crescimento.
  3. Realização de Desejos: é o uso da imagem-objetivo do futuro desejado, comparando a situação atual com a pretendida, focando na defasagem entre hoje e o futuro. Nesse exercício é importante pensar nas características que tornam este futuro atrativo e pensar no que pode ser feito para ir reduzindo a defasagem. 
  4. Prepare-se para o Pior: é o clássico do planejamento com cenários. Como o nome diz, é a prática de antever dificuldades e revezes para manter-se na rota desejada. Determine o que pode dar errado ou provocar distrações; liste as possíveis fontes de adiamento e as mantenha visíveis, evite as situações arriscadas e monte previamente um plano de contingência para recuperar o foco. Use o plano se estiver saindo da rota.

Essas recomendações podem ser muito potentes em sua capacidade de começar e terminar as atividades importantes e atingir metas de médio e longo prazo, mas as atitudes e práticas precisam ser sistematizadas e incorporadas no seu dia a dia. O desafio é grande, mas não precisa acontecer tudo de uma vez só. Adote aos poucos, começando pelo que for mais fácil, consolide os avanços e você vai ver que conseguirá ampliar seu foco na execução.

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